
A Bienal de Arte de São Paulo é uma mostra de arte que ocorre a cada 2 anos desde 1951. É considerada um dos principais acontecimentos artísticos no cenário mundial, sendo o pavilhão que abriga as edições desde 1957 projetado por Oscar Niemeyer (1907-2012), um dos mais destacados nomes da arquitetura moderna brasileira. A 34ª edição da Bienal de São Paulo intitulada “Faz escuro mas eu canto” faz referência a um verso do poeta Thiago de Mello (1926-).
Composta por 3 enunciados (‘Meteorito do Bendengó’, ‘Os retratos de Frederick Douglas’ e ‘O sino de Ouro Preto’), a Bienal aproxima a representatividade de tradições seculares ao redor do mundo. Ainda, perpassa por questões sociais, políticas, figuras históricas e artefatos memoriais, resgatando resistências, sobrevivências, simbolismos e culturas dos povos indígenas e afro-brasileiros. Para tal, a exposição é composta de telas, esculturas, fotografias e gravuras de artistas que através da manifestação artística apresentam linguagens e reafirmaram percepções culturais.


Com o enfoque nas narrativas artísticas dos povos originários e afro descendentes, a 34ª Bienal de São Paulo apresenta um olhar crítico sobre os resquícios coloniais presentes nessas sociedades ainda hoje. Assim sendo, 2 artistas presentes na exposição evidenciaram a importância de se debater o assunto, principalmente sob uma perspectiva decolonial: Jaider Esbell e Daiara Tukano.
Jaider Esbell (1979-) nasceu na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima. Suas obras buscam resgatar o imaginário indígena dos contos e mitos, ao mesmo tempo em que escancara o descaso com o meio ambiente e expõe sua insatisfação com as práticas da primazia branca no país. Porém, o tom politizado e crítico de suas obras de maneira alguma ofuscam a beleza de suas criações que, de maneira contemporânea, exibem a manutenção da conexão secular dos povos indígenas com a natureza.
Daiara Tukano (1982-) nasceu em São Paulo quando seus familiares lutavam pelos direitos indígenas inexistentes no país até a Constituição de 1988. Dessa maneira, a ativista pertencente ao Povo Tukano decidiu evidenciar a ancestralidade das tradições indígenas através de obras criadas com o auxílio do Ayahuasca, planta medicinal presente em rituais milenares. Nesse contexto, Daiara busca desagregar o sentido comum da arte ocidental, considerando suas obras mensagens místicas e críticas, tratando, por exemplo, do etnocídio de seus povos e da perda de tradições devido ao extermínio da natureza.


Integrando o debate a respeito da presença negra nas sociedades, Frederick Douglass e seus retratos foram selecionados para compor um dos três ensaios propostos pela 34ª Bienal de São Paulo. Abrindo espaço para a discussão a respeito da autorrepresentação e da influência da fotografia no espaço coletivo, a Bienal traz o protagonismo dos marginalizados. Dessa maneira, a proposta curatorial incentiva o questionamento a respeito das percepções coletivas, dos simbolismos e da visibilidade dos negros, principalmente no Brasil, no decorrer das décadas.
Frederick Douglass (1818-1895) foi um fotógrafo, escritor e abolicionista nos Estados Unidos. Considerado o norte-americano mais fotografado do século XIX, Douglass utilizou de seus retratos justamente para desmantelar os preconceitos criados pela sociedade. Expondo justamente a parcialidade das pessoas brancas ao reproduzir antecipadamente os estereótipos dos negros, e não o indivíduo, o artista buscou a afirmação da visibilidade dos afrodescendentes a partir do impulso à circulação de imagens.

