Picasso & Les Femmes d´Alger

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A exposição “Picasso & Les Femmes d’Alger”, em exibição no Museu Berggruen (Berlim, Alemanha), convida o expectador a adentrar em uma esfera pouco conhecida de Pablo Picasso (1881-1973). Reunindo grande parte da série de obras pintadas pelo artista no ano de 1954 com a temática das mulheres da Argélia, a obra de inspiração realizada por Eugène Delacroix (1798-1863), uma escultura de Matisse (1869-1954) e imagens de artistas contemporâneos que abordaram o tema. A mostra traz encantamento e, ao mesmo tempo, reflexões profundas a respeito da representação de mulheres africanas. 

Buscando o Oriente como inspiração, Delacroix pinta duas telas, em 1834 e entre 1847-1849, intituladas “Mulheres de Argel em seu apartamento”, compondo 4 mulheres dispostas em um ambiente com cores e elementos que remetem à influência oriental na África. A obra presente no Museu Berggruen é a segunda realizada pelo artista, cedida pelo Museu Fabre (Montpellier, França), na qual o francês explora com maior intensidade as tonalidades quentes, os contornos, o arranjo dos tecidos e as feições das mulheres. Juntamente com a obra, outra influência para o desenvolvimento da série por Picasso foi seu amigo Matisse, o qual pôde compartilhar as experiências vivenciadas na Argélia e, coincidentemente, faleceu no ano em que Picasso iniciou seus trabalhos na temática.

A Exposição

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Entrada da exposição.
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Disposição das obras.

O conjunto de 15 obras realizadas por Pablo Picasso (1881-1973) abrangendo a temática das mulheres argelianas foi pintado durante três meses e reúne mais de 100 esboços na mesma linha. Curiosamente, as imagens apresentam características singulares das pinturas de Picasso, como a paleta em tons de cinza e elementos cubistas, unidos a cores vibrantes, formas e arranjos que garantem novas perspectivas sob a pintura modelo de Delacroix.

A exposição “Picasso & Les Femmes d’Alger” traz à tona questionamentos pertinentes ao redor do tema abordado. Primeiramente, deve-se pensar o contexto histórico em que Picasso realizou as obras: a Guerra de Independência da Argélia, com início em 1954 e término em 1962 e, com isso, a crescente mobilização dos intelectuais franceses, com os quais o artista mantinha contato através dos jornais. Além do contexto político-histórico, no mesmo ano, Picasso perdia o seu grande amigo, autoridade e influência direta no tema, Henri Matisse (1869-1954). Por fim, a problematização da questão colonial e do Oriente representado pelo Ocidente, estava em vigor já quando Delacroix pintava “As mulheres de Argel em seu apartamento”. Ao ambientar-se com tais questões, a exposição contempla novas camadas de sensibilidade e interpretação, permitindo ao expectador vislumbrar a arte na conjuntura em que foi realizada.

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Pablo Picasso, 'As mulheres da Argélia' (Versão N), 13.2.1955.
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Pablo Picasso, 'As mulheres da Argélia' (Versão O), 14.2.1955.
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Henri Matisse, 'Nu deitado sobre a cama', 1906.
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Pablo Picasso, 'Grande nu deitado', 1945.
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Contrastando com o romantismo de Delacroix e com o cubismo de Picasso, a exposição “Picasso & Les Femmes d’Argel” ainda conta com um conjunto de obras contemporâneas, inclusive de artistas argelinos, que retratam as mulheres argelinas. As pinturas e fotografias contribuem para a continuidade da linha do tempo artística, proporcionando ao expectador a experiência comparativa de técnicas, modelos, disposições e sentidos às obras. Por fim, ainda há um vídeo expositivo de homens nas praias da Árgélia da década de 1950, mesma época em que Picasso pintou sua série, admitindo a problematização das representações do corpo feminino e suas variantes.

A fotografia ‘Mémoire dans l’oubli’ (‘Memória no Esquecimento – tradução livre), de Halida Boughriet se torna um ponto alto na exposição quando se percebe a ação do tempo para as mulheres argelinas e para o país africano representados nos anos 50. Com olhar profundo e entreaberto, a senhora encara o visitante apresentando uma outra versão do mesmo tema abordado no século XIX, com Delacroix. Ainda, a mulher retratada pode ser compreendida como um espelho da história de um país que apenas recentemente pôde se libertar do colonialismo arbitrário europeu.