60ª Bienal de Veneza: Stranieri Ovunque – Foreigners Everywhere

Inaugurada no em abril deste ano, ocorre até esta semana (18) a 60ª Bienal de Veneza intitulada  “Stranieri Ovunque – Foreigners Everywhere” [Estrangeiros em Todos os Lugares]. A mostra, que possui pela primeira vez uma curadoria latino-americana – e brasileira -, teve seu nome inspirado em uma série de obras do coletivo Claire Fontaine que consistem em esculturas de neon e cores vibrantes que reproduzem em vários idiomas as palavras “Estrangeiros em Todos os Lugares”, que teve por sua vez inspiração em um coletivo de Turim que carrega a frase como nome e que lutou intensamente contra o racismo e xenofobia na Itália durante os anos 2000.

Refugee Astronaut VIII, Yinka Shonibare, 2024. Foreigers Everywhere, do coletivo Claire Fontene.

Segundo o curador, Adriano Pedrosa, o título carrega consigo diversos significados: “Primeiro, que onde quer que você vá e onde quer que esteja, você sempre encontrará estrangeiros – eles/nós estamos em todos os lugares. Segundo, que não importa onde você se encontre, você é sempre verdadeiramente, e no fundo, um estrangeiro”. A partir de uma perspectiva global, “Foreigners Everywhere” possui um forte significado frente à crise de refugiados e a marginalização de povos em seus próprios territórios. 

A exposição conta com a participação de mais de 300 nomes de diversos países a partir de seus inúmeros pavilhões, entre eles, o sul global recebe grande destaque de artistas que pela primeira vez participam de uma mostra internacional. O evento teve início no dia 17 de abril e terá seu encerramento no dia 24 de novembro. O valor inteiro dos ingressos varia de 30 a 50 euros a partir da possibilidade do público adquirir um passe único ou ingressos múltiplos para mais de um dia de visitação. Além disso, a Bienal conta com a possibilidade de visitação guiada para famílias, universidades e escolas básicas, assim como recursos de acessibilidade.

Curador Adriano Pedrosa em frente a Bienal.

No contexto de países no latinos, o Brasil recebe destaque com a exposição “Ka’a Pûera: nós somos pássaros que andam”. O pavilhão brasileiro que possui nesta edição um foco num Brasil como terra indígena, recebe então o nome de “Hãhãwpuá”, palavra usada pelo povo indígena Pataxó para se referir ao solo que após a colonização e exploração ficou conhecido como Brasil. 

“Ka’a Pûera” – ou capoeira -, antes de nomear a prática cultural, é palavra empregada no tupi, usada para se referir à zonas de mata que foram derrubadas em frente à ação humana ou naturalmente e que estão em processo de recuperação diante das consequências sofridas. Além disso, a palavra possui outro duplo significado: é tanto um espaço no campo quanto um pássaro que se camufla no chão da floresta. Essa proposta está presente no pavilhão, que traz à vida a história da resistência indígena por meio de obras de artistas membros da Comunidade Tupinambá das aldeias da Serra do Padeiro e Olivença, na Bahia.

Equilíbrio, Olinda Tupinambá, 2020.

Além dos grandes nomes artísticos expostos, a mostra possui a curadoria de três figuras muito presentes na arte decolonial brasileira: Arissana Pataxó (1983- ), artista plástica da etnia Pataxó que desenvolve um trabalho a partir da perspectiva artística indígena como parte do mundo contemporâneo; Denilson Baniwa (1984- ), indígena do povo Baniwa, é artista visual e desenvolve seus trabalhos além da arte voltados ao ativismo dos povos indígenas; e Gustavo Caboco Wapichana (1989- ), artista visual Wapichana que desenvolve trabalhos voltados a performance, pintura e bordado, propondo formas de repensarmos a memória de povos indígenas na sociedade atual.

Curadores Daniel Baniwa, Arissana Pataxó e Gustavo Caboco Wapichana

Diante da temática proposta pela 60ª Bienal de Veneza, o Brasil se mostra muito relevante no que diz respeito ao protagonismo indígena a partir do estrangeiro, evidenciando e dando protagonismo a uma parte da população que embora, onipresente na história, teve sua trajetória marginalizada e considerados estrangeiros de suas próprias terras.

Manto Tupinambá, Glicéria Tupinambá, 2023.

Fundada em 1895, a Bienal de Veneza se tornou um dos mais prestigiados eventos de exposições em sua amplitude. Criada inicialmente para expor a arte italiana, aos poucos o evento adotou espaços destinados a artistas estrangeiros de acordo com a temática de cada uma das edições. Sua divisão é composta por uma exposição principal no Pavilhão Central, pavilhões divididos por dezenas de países e exposições organizadas de maneira própria pela Bienal para a realização de eventos ao longo da mostra.

Primeira edição da Bienal de Veneza, em 1895.

Em 2024, 129 anos depois de sua fundação, a Bienal apresenta uma temática marcante para o cenário sociopolítico atual com sua proposta voltada ao conceito do que é ser estrangeiro. A edição conta com uma forte presença e destaque de artistas do sul global, mais especificamente latinos, assim como um curador brasileiro, o que também dialoga com a vontade do evento em incluir uma participação mais diversificada para além de quem expõe. Adriano Pedrosa é curador do Museu de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP) e foi escolhido como Diretor do Setor de Artes Visuais, consolidando sua carreira e seu nome diante de um dos maiores eventos de arte no cenário global. 

Edição mais recente da Bienal de Veneza, em 2024.

Não apenas às obras está limitada a proposta desta edição, o protagonismo se estende ao coletivo indígena da Amazônia MAHKU (Movimento dos Artistas Huni Kuin). Fundado em 2013, o coletivo busca um diálogo entre as vivências indígenas diante do mundo não indígena a partir de sua arte, fixando sua existência como indivíduos tão relevantes quanto os demais sujeitos presentes na sociedade e no mundo das artes. 

Coletivo MAHKU presente na 60ª Bienal de Veneza

A participação do coletivo se deu através do mural de 750 metros na fachada do pavilhão principal, Giardini, da Bienal deste ano. A  partir de sua imensidão somos levados ao mito de origem Huni Kuin. O mito nos conta a história da partição dos continentes e dos povos, assim como a consolidação da identidade Huni Kuin. A figura de Kapewe Pukeni (jacaré-ponte, figura central do mural), torna-se um reforço do interligamento entre os estrangeiros e a arte como forma de resistência e permanência, assim como no mito.

Detalhe do mural presente na Bienal deste ano com a figura de Kapewe Pukeni

Os artistas do coletivo MAHKU detalham seu projeto para a 60ª Bienal de Veneza “Stranieri Ovunque – Foreigners Everywhere” no vídeo abaixo disponibilizado pela instituição: