O Sesc (Serviço Social do Comércio), unidade na Vila Mariana, inaugurou no dia 27 de Junho a exposição “Lélia em nós: festas populares e amefricanidade”, uma coletânea de obras que celebra a cultura amefricana inspirada na produção bibliográfica “Festas populares no Brasil”, além de outras produções intelectuais de Lélia Gonzalez (1935 – 1994), historiadora, antropóloga e filósofa brasileira, conhecida por ser um dos grandes nomes na luta e no pensamento antirracista.
Sobre o recorte das festividades afro-brasileiras, a mostra reúne uma ampla seleção de artistas que percorrem diferentes abordagens históricas e contemporâneas, dialogando com os pensamentos de Lélia e se manifestando por meio de modalidades como: fotografia, pintura, performance, instalação, vídeo, e outras. Alguns dos nomes presentes que expõem seus trabalhos incluem: Lidia Lisboa (1970 -), Maria Auxiliadora (1935 – 1974), Alberto Pitta (1961 -) e Walter Firmo (1937 -), assim como outros. Sob a curadoria de Glaucea Britto e Raquel Barreto, a exposição busca, para além de seu título, estabelecer uma compreensão ampliada acerca dos reflexos das influências culturais de povos africanos no Brasil.
“Lélia em nós” é desenvolvida a partir de seus cinco eixos temáticos: Festas Populares: o livro; Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira. Cumé que a gente fica?; Pele Negra, máscaras negras; Beleza Negra ou: ora-yê-yê-ô; De Palmares às escolas de samba, tamo aí!; que estabelecem diálogos entre a vida de Lélia, o movimento negro, as festividades e relogiosidades populares e aspectos históricos da experiência da mulher negra como perpetuadora dos valores culturais afro-brasileiros. A mostra, iniciada em 27 de junho, acontecerá até 24 de novembro no Hall dos elevadores (torre A), com horário de funcionamento das 10h às 21h de terça-feira a sábado e aos domingos das 10h às 18h. A visitação é gratuita e o espaço conta com recursos de acessibilidade como audioguias, audiodescrição e obras táteis de Felipe Cartaxo.
Entre diferentes obras, “Lélia em nós: festas populares e amefricanidade” desenvolve-se a partir de cinco eixos que se complementam entre si, evidenciando a mensagem proposta pela exposição ao honrar a herança de Lélia Gonzalez.
O primeiro eixo, “Festas populares: o livro”, apresenta o trabalho de Lélia, importante para o reconhecimento do que é ser brasileiro no estrangeiro, por meio de excertos de sua célebre obra e demais documentos a ela relacionados e inspirados.
“Racismo e sexismo na cultura brasileira. Cumé que a gente fica?” É o segundo eixo temático da exposição e conta com a participação de cinco artistas negras que produziram obras inéditas a partir do ensaio icônico de Lélia Gonzalez “Racismo e sexismo na cultura brasileira”.
“Pele Negra, máscaras negras” dialoga com “Pele negra, máscaras brancas”, um dos livros mais importantes para a ascensão dos movimentos da luta antirracista e fundamental para o pensamento de Lélia. Assim, propõe-se uma celebração à presença de máscaras e mascarados da cultura africana em festas populares do Brasil.
O último eixo, “De Palmares às escolas de samba, tamo aí!”, se estrutura a partir da consideração de Lélia de que Zumbi dos Palmares forjou uma nacionalidade brasileira a partir da igualdade. O espaço reúne fotografias, pinturas e vídeos de Escolas de Samba de São Paulo, comissionados especialmente para a exposição.
Uma vez que foram produzidas obras inspiradas em seus trabalhos exclusivamente para esta exposição, “Lélia em nós” ao decorrer de seus cinco eixos, faz jus ao seu nome ao manter viva a memória e a palavra de seu legado.
Lélia Gonzalez (1935-1994) mesmo após sua morte, mantém sua história viva e segue sendo motivo de inspiração para diversas produções, assim como para esta exposição. Nascida no dia primeiro de fevereiro, a mineira mudou-se com a família para o Rio de Janeiro e frequentou a Universidade do Estado do Rio de Janeiro, onde cursou História, Geografia e posteriormente Filosofia, as quais direcionou seus estudos à gênero, raça e classe no Brasil, sendo uma das pioneiras neste debate.
A autora foi uma das mais importantes intelectuais brasileiras do século XX, produziu relevantes obras no cenário brasileiro, estando entre elas “Por um Feminismo Afro-Latino-Americano”, “Améfrica Ladina” e “Festas populares no Brasil”, a principal inspiração para a mostra. Lançado em 1987 com apenas 3 mil exemplares, o livro foi premiado internacionalmente na época de publicação, mas ainda é pouco conhecido no país. Após mais de três décadas de sua produção original, o livro ganha uma nova edição com a editora Boitempo e destaque central na exposição “Lélia em nós: festas populares e amefricanidade”.
Sendo o único livro de Lélia publicado exclusivamente como autora ainda em vida, trata-se de registros fotográficos de festas populares do Brasil, com textos informativos que apresentam as marcas da herança africana na cultura brasileira. As curadoras da mostra reforçam a ideia de Gonzalez de que as festas são espaços que reafirmam existências de múltiplas narrativas, sejam elas complexas, poéticas e potencialmente subversivas, “um espaço de ritualização da vida e da morte”.
Não é possível falar de feminismo antirracista sem falar de Lélia Gonzalez, e assim como Angela Davis uma vez disse, “aprendo mais com Lélia Gonzalez do que vocês jamais aprenderão comigo”. Lélia é uma figura de múltiplos significados, atemporal e principalmente memorável, com um legado que ficará marcado além do espaço em que a expõe