Inaugurou no dia 24 de setembro no Museu d’Orsay a exposição dedicada à renomada artista norueguesa Harriet Backer (1845-1932). “Harriet Backer: The music of colors” é a primeira retrospectiva dedicada à artista na França e faz parte de um dos principais eixos da programação do museu, na qual propõe a descoberta de figuras menos conhecidas no campo das artes, mas que não deixam de ser essenciais para as transformações artísticas no período em que viveram.
Embora não tão conhecida no cenário internacional, Harriet Backer em seu país foi a pintora mais renomada do final do século XIX, muito prestigiada por seu uso rico e luminoso de cores, criando um estilo único unindo o interior e o “en plein air”, pinturas feitas ao ar livre. Famosa por seus interiores rústicos, por suas naturezas mortas e retratos da vida rural, além de seu interesse em interiores de igreja, a artista possui uma forte inspiração no movimento realista, juntamente com pinceladas livres e atenção às variações de luz, especificidade das inovações do impressionismo. Através de sua arte, Harriet ilustrou diante de sua época vidas cotidianas e o lugar das mulheres em uma sociedade extremamente patriarcal.

“Harriet Backer: The music of colors” é uma iniciativa do Museu Nacional de Oslo e do Museu de Arte de Kode Bergen e foi organizada em colaboração com o Museu Nacional de Estocolmo e o Museu d’Orsay, este último que disponibiliza seu espaço para as obras. Sob a curadoria de Leila Jarbouai, curadora-chefe de pintura e artes gráficas do Museu d’Orsay, em parceria com Estelle Bégué, chefe de estudos documentais do museu, a mostra estará disponível até o dia 12 de janeiro de 2025. O museu está aberto de terça à domingo das 9h30 às 18h, com exceção das quintas na qual o museu fecha apenas às 21h45. Seus valores de visitação variam de 10 a 16 euros, possuindo gratuidade para os critérios descritos no site.

Harriet Backer nasceu em Holmestrand, Noruega. De família abastada, floresceu para a arte desde cedo, e como muitos artistas noruegueses, se formou nas principais capitais da arte europeia. Junto a sua irmã, Agathe – também interessada da arte -, mudou-se para diferentes regiões ao longo de seu processo formativo, o qual teve a oportunidade de conhecer e ser orientada por artistas como Léon Bonnat e Jules Bastien-Lepage, professores da academia Madame Trélat de Lavigne, em Paris, na qual Backer permaneceu por dez anos desde 1878.
Durante sua jornada de aprendizado no mundo das artes, Backer conheceu inúmeros artistas que assim como ela, ambicionavam se tornar pintoras profissionais. Em uma época em que as mulheres nos países escandinavos não eram consideradas cidadãs plenas, não seria diferente diante do reconhecimento de seus trabalhos. Assim, muitas se viam na necessidade de se mudar para a Alemanha ou França para permanecerem produzindo em estúdios particulares, construindo seus nomes e carreiras.

Desafiando as normas de gênero, compartilhou a partir do ano de 1875, um apartamento-estúdio com a também pintora de paisagem e ativista dos direitos femininos Kitty Kielland (1843-1914), o qual permaneceu até o fim de sua vida. Uma união tão próxima entre mulheres não era incomum para o final do século XIX, levando em consideração que para possuírem uma independência financeira e profissional, a maioria destas mulheres permanecia solteira diante da imposição do contrato social dos casamentos.
Foi na capital francesa que Harriet se encontrou e se formou artista, juntamente com muitas outras. Lá, tiveram a oportunidade de se tornarem artistas profissionais, consolidando suas carreiras e estabelecendo redes a fim de ganhar reconhecimento público e artístico. Essas mulheres artistas formaram uma comunidade, eternizando sempre umas às outras em retratos, onde o estúdio coletivo desempenhava o papel de uma sala própria de suas criações, onde a partir da arte se tornaram independentes.

O título da exposição “Harriet Backer: The music of colors” evoca o amor da artista pela música, e a conexão que a própria faz com suas obras. Como muitos de seus contemporâneos, ela considerava a música como inspiração e modelo para toda a arte. Por meio de suas pinceladas, do equilíbrio nas composições e da escolha das cores, Harriet Backer criou obras com ritmos visuais e harmonias cromáticas, que capturavam a experiência sensorial proporcionada pela música.
A música sempre ocupou um lugar especial na vida e obra de Backer. Sua irmã, Agathe Backer Grondahl, foi uma renomada musicista na Noruega e frequentemente aparece como tema de suas pinturas. Em suas obras, é possível perceber como a atmosfera musical parece fluir através das pinceladas, com composições que traduzem a harmonia e os ritmos do som em imagens. Mais do que um tema, Backer desejava que suas pinturas fossem uma espécie de “música para os olhos”.

Embora procurasse pintar retratos por uma questão prática para sua carreira, Backer jamais conseguiu deixar de lado sua paixão pelo visual interior e pelas variações de luz presentes no ambiente, uma vez descrevendo sua angústia e fascínio como: “Assim que entro em uma sala com cores azul e vermelho em móveis rústicos ou paredes foscas e brilhantes, onde a luz refletida pelas árvores e pelo céu entra por uma janela ou porta, rapidamente me encontro diante de uma tela”.
Não apenas de interiores se fascinava Harriet Backer, a artista também possui forte interesse nos exteriores, mesmo que no fim de sua carreira. Assim, Backer mistura cenários e incorpora elementos de cor e luz, dando vida à natureza silenciosa de objetos no interior a partir do visual vívido e expressivo do externo juntamente com uma composição de cores, criando ritmos e harmonias coloridas para suas obras, assim como a música criou em sua vida.

Assista ao vídeo sobre a exposição “Harriet Backer: The music of colors”: