O edifício Pina Estação recebeu no mês de maio a expressiva exposição “J. Cunha: Corpo tropical”, uma retrospectiva do aclamado artista baiano José Antônio Cunha (1948 – ), popularizado como J. Cunha. Prestes a completar 60 anos de carreira, Cunha expõe sua maior mostra individual, enfatizando o caráter experimental, a diversidade das linguagens e um compromisso com a política que o artista possui em suas obras.
Reunindo cerca de 300 obras, entre elas desenhos, cartazes, pinturas e documentos, “Corpo tropical” apresenta a trajetória de J. Cunha, acompanhada de suas trajetórias pela Bahia e seu prestígio nos cenários nacionais e internacionais. A exposição divide-se em três setores organizados de maneira cronológica: “Made in Brasil”; “Passar por aqui”; “Neobarroco Afro-pop”, todas possíveis de serem visitadas através de um tour virtual oferecido pelo próprio site da Pinacoteca.
Ocupando com totalidade o 4º andar da Pina Estação, a exposição teve início em 04 de maio e acontecerá até 29 de setembro, contando com a curadoria de Renato Menezes, que sintetiza a obra de J. Cunha como uma associação homogênea e coerente entre o belo, o alegre e o comprometido com a política. O local tem horário de funcionamento de quarta-feira a segunda-feira, das 10h às 18h, com ingressos entre 17 e 32 reais, com exceção de crianças até 10 anos, idosos e PCD, na qual a entrada é gratuita. Além da exposição presencial, a Pinacoteca de São Paulo disponibiliza em seu próprio site um tour 3D da mostra “J. Cunha: Corpo tropical” para que assim mais pessoas possam admirar e conhecer a jornada artística de Cunha.
A exposição foi pensada e dividida em três partes, a fim de celebrar a trajetória artística de J. Cunha. Com uma carreira marcada pela fusão de elementos culturais nordestinos e críticas sociais, Cunha nos convida a explorar três fases distintas de sua produção cronológicamente.
Na primeira parte, intitulada “Made in Brasil”, mergulhamos no início da carreira de J. Cunha, onde suas criações transitam entre a pintura e a dança. Aqui, ele reflete sobre suas raízes nordestinas e as mudanças causadas pelo capitalismo, especialmente a perda das identidades culturais locais.
A segunda parte da exposição, “Passar por aqui”, abrange 25 anos de produção, desde a década de 1980 até 2005. Esse é o momento onde Cunha aprofunda seu trabalho gráfico, por meio de cartazes, da experimentação de cores restritas ao meio impresso e a reprodução de estampas em larga escala.
Por fim, em “Neobarroco Afro-pop”, somos apresentados à fase mais recente e madura do artista. A partir dos anos 2000, sua pintura ganha proporções maiores, entregando elementos como grafismos caboclos, ícones da cultura pop e símbolos do cangaço.
Ao percorrer “J. Cunha: Corpo Tropical”, somos levados em uma jornada pelo desenvolvimento artístico de Cunha. Ao decorrer dos diferentes setores, podemos observar uma transição em seu trabalho, traços com estilos únicos e um caráter individual em cada uma de suas temporalidades. “Corpo tropical” é muito mais do que uma mostra das obras de Cunha, é também uma saudação a toda sua criatividade e manifestações políticas em seus processos artísticos.
Natural da Península Itapagipana, em Salvador, José Antônio Cunha está conectado com o mundo das artes visuais desde os seus 18 anos, quando ingressou no curso livre da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia e, a partir dali, experimentou diversas modalidades artísticas ao tornar-se bailarino, cenógrafo, e figurinista do grupo folclórico Viva Bahia em 1960. Desde cedo, o artista conviveu com a religiosidade afro-indígena e cigana, fato que explica a presença de elementos como o boi, o cangaço, o sertão e a religiosidade popular em seus trabalhos. Além disso, Cunha também colaborou com o Balé do Teatro Castro Alves e do Balé Brasileiro da Bahia, bem como contribuiu para a construção da identidade do bloco de carnaval Ilê Aiyê, em Salvador, e de outras temáticas relacionadas ao carnaval de rua em Salvador.
O protagonismo da mostra está em “Códice” (2011-2014), um painel de 7m x 3m com 21 telas subdivididas em 25 áreas quadradas, que compõem 525 campos, uma obra monumental exibida pela primeira vez em São Paulo. Trata-se de um rico trabalho que apresenta os profundos saberes do artista acerca da esfera do sagrado, admirável por horas. Com uma variedade de símbolos e cores, “Códice” constroi um panteão de divindades afro-brasileiras em um grandioso mosaico pintado ao longo de três anos e que reforça um dos momentos mais maduros da carreira de Cunha.
A carreira de Cunha permeia uma série de obras emblemáticas e de grande relevância para o cenário artístico brasileiro. Assim como Renato Menezes – curador da mostra – disse, “J. Cunha: Corpo tropical” é um meio de celebração da energia vital, de renovação do axé e de imaginação de um futuro-afroindígena (…) estimula um ajuste de contas com a história, reconhecendo em Cunha sua energia criativa singular, animando uma das carreiras mais prolíficas da arte brasileira atual”.
Assista ao documentário inédito sobre a maior exposição de J. Cunha já realizada até o momento: