O Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP) inaugurou nos meses de julho e agosto as exposições “Catherine Opie: o gênero do retrato” e “Leonilson: agora e as oportunidades”, respectivamente. Ambas as mostras integram o ano da programação do museu dedicadas a histórias da diversidade LGBTQIA +, incluindo outros artistas, como Francis Bacon e Lia D Castro.
“Leonilson: agora e as oportunidades” nos apresenta o trabalho de José Leonilson Bezerra Dias (1957-1993), pintor, escultor e desenhista brasileiro que ficou marcado por sua trajetória nas artes como um homem gay soropositivo vivendo no auge do preconceito contra pessoas portadoras de HIV. O conjunto está dividido em cinco salas, cada uma dedicada à produção de Leonilson entre 1989 e 1993, na galeria do primeiro andar do museu e em uma seção adicional no mezanino do primeiro subsolo.
“Catherine Opie: O gênero do retrato” é a primeira exposição individual da fotógrafa contemporânea internacional Catherine Opie (1961- ) no Brasil. Com uma série de 66 fotografias realizadas por Opie entre os anos de 1987 e 2022, a exposição reúne um coletivo de retratos da comunidade queer – temática que Opie se dedica desde a faculdade. Os retratos de Catherine figuram ao lado de outras obras emblemáticas do Museu, fomentando um diálogo único entre muitos gêneros, assim como seus retratos.
“Leonilson: agora e as oportunidades” ficará disponível até o dia 17 de novembro, e “Catherine Opie: o gênero do retrato” até o dia 27 de outubro, ambos sob curadoria de Adriano Pedrosa. O MASP conta com recursos de acessibilidade em todos os seus espaços, e está aberto à visitação em todos os dias exceto nas segundas-feiras, com horário das 10h às 18h – com exceção das terças na qual o museu funciona até às 20h. O preço dos ingressos varia entre 35 e 70 reais, com entrada gratuita para pessoas com deficiência e crianças menores de 11 anos, além das reservas pelo site que possibilitam também a gratuidade.
“Leonilson: agora e as oportunidades” conta a história de Leonilson e seus trabalhos emblemáticos com temáticas fortes e cheias de emoção, abordando questões como abandono, perda, solidão e a doença que lhe marcou e tirou a vida de maneira tão precoce.
Sendo um artista notório na história da arte, mas também controverso do que se esperava para o cenário artístico brasileiro de sua época, Leonilson nasceu em Fortaleza e aos 20 anos, ao mudar-se para para São Paulo com sua família, adentrou o mundo artístico ao cursar educação artística na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), na qual foi aluno de grandes nomes na arte, como Julio Plaza (1937-2003) e Regina Silveira (1939-). Em 1981, viaja pela primeira vez ao exterior, mais especificamente em Madrid, onde realizou sua primeira exposição individual na Galeria Casa do Brasil.

Para tamanha relevância, não apenas nas artes, Leonilson quebrava expectativas, mas também perante a sociedade em que estava inserido, sendo um homem gay e soropositivo. O artista contraiu HIV aproximadamente aos 34 anos, vivendo dois anos com o vírus e vindo a falecer em 1993 em decorrência da AIDS, aos 36 anos. Diante disso, por grande parte de sua breve vida estar inserida no contexto artístico, suas obras contam, predominantemente, com um caráter autobiográfico, pautando especialmente os últimos dez, e mais proeminentes, anos de sua carreira. Nesse sentido, a mostra aborda o chamado Leonilson tardio, ou seja, a fase mais madura de sua linguagem e poética, caracterizada pela mescla entre ficção e realidade, religião e política, materiais, imagens e textos.
As marcas do trabalho de Leonilson ainda reverberam em uma pluralidade de espaços, imagens, exposições, livros, filmes, teatro e tatuagens. Trata-se de um artista diverso e adverso, que expressa suas paixões e emoções e, com isso, constitui uma tocante constelação de obras e importantes mensagens que incitam a visibilidade e reconhecimento não só para pessoas LGBTQIA+, mas para seus dilemas e infortúnios.

“Catherine Opie: o gênero do retrato” nos apresenta 66 fotografias marcantes de Catherine Opie, artista visual e educadora americana que marca presença no cenário contemporâneo. A partir de retratos e fotografias de paisagem, Opie contorna em seus trabalhos expressões de gênero e identidades, documentando a relação que existe entre o indivíduo e seu espaço habitado.
Catherine Opie nasceu em Ohio e muito jovem se encantou pela fotografia, tendo como grande inspiração o fotógrafo Lewis Hine. Em 1988, Opie muda-se para Los Angeles e recebe o grau de Mestre em Belas Artes e começa a trabalhar como artista e técnica de laboratório na Universidade da Califórnia. Catherine foi uma das precursoras das questões de gênero, ficando conhecida pela primeira vez com Being and Having (1991) e Portraits (1993-1997), retratando comunidades LGBT em Los Angeles e São Francisco. Seu trabalho é construído a partir da identidade do indivíduo na qual retrata, com questões envolvendo gênero, idade, raça e principalmente, identidade, muitas vezes com aspectos performativos.

O gênero do retrato utiliza dos diversos conceitos atribuídos à palavra gênero na língua portuguesa, em oposição ao inglês. Uma vez que “genre” é o tipo, a espécie e a categoria, “gender”, a construção social da diferença entre homens, mulheres e aqueles que se identificam de outros modos e “gênero” são estes dois conceitos em nosso vocabulário. O trabalho de Opie dialoga com retratos clássicos ocidentais, assim, a mostra conta com 21 retratos do acervo europeu do MASP, dialogando diretamente com aspectos de obras de Opie, como pintura e fotografia, o histórico e contemporâneo, e acima de tudo corpos, sexualidades e identidades.
“Catherine Opie: o gênero do retrato” é uma grande coletânea de imagens que nos mostram de maneira vívida e crua o que Opie quer transmitir quando quer falar de gênero. A simplicidade retratada através de suas lentes carregam consigo um simbolismo e uma crítica a binariedade, assim como nos ensina a atribuir uma identidade digna a corpos marginalizados pela sociedade.

Assista aos dois vídeos sobre as exposições “Leonilson: agora e as oportunidades” e “Catherine Opie: o gênero do retrato”: