O Museu do Luxemburgo em Paris inaugurou no dia 9 de outubro a renomada exposição “Tarsila do Amaral. Peindre le Brésil moderne”, uma coletânea de mais de 150 obras da artista brasileira Tarsila do Amaral (1886-1973), que marcou o cenário da arte moderna não apenas em seu país, mas no mundo inteiro. Postumamente exposta na França, a artista retorna finalmente ao lugar onde encontrou inspiração para sua arte com os movimentos de vanguarda europeia, combinando cubismo e primitivismo com influências brasileiras e, assim, criando um estilo característico e único para suas obras.

A mostra apresenta obras importantes dos movimentos da década de 1920, alternando entre paisagens de cores vivas e visões misteriosas e fantásticas. Entretanto, também observa-se uma transição nas características de seu trabalho a partir da década de 30, onde suas artes se tornam políticas, progressivamente geométricas e abstratas na década de 60. Assim, junto a dimensão estética, suas obras se tornam sociais e identitárias.
Sob curadoria chefe de Cecilia Braschi, “Tarsila do Amaral. Peindre le Brésil moderne” permanecerá homenageando a grandiosidade da artista até 2 de fevereiro de 2025. O Museu de Luxemburgo está aberto todos os dias, das 10:30h às 19h, conta com entrada única, com ingressos que variam entre 14 e 25 euros e entrada gratuita para menores de 16 anos, além de outras especificações descritas no site. Além disso, o site do museu conta com um cronograma de atividades que estarão acontecendo ao longo da exposição.

“Tarsila do Amaral. Peindre le Brésil moderne” está organizada em seis salas que evocam expressivamente a brasilidade de Tarsila do Amaral (1886-1973) para a capital francesa. O público terá a oportunidade de conhecer mais sobre a renomada artista a partir das diferentes fases de seus trabalhos ao longo dos eixos temáticos: Une “caipirinha habillée par Poiret”; Découverte et Invention du Paysage Brésilien; De A Negra à Macunaïma : ícones primitives et modernes; Antropofagia; Travailleurs et travailleuses e Nouveaux paysages; entrando em contato não apenas com suas obras, mas também trajetórias e vivências.
Obra de grande destaque na carreira da artista e da exposição, “Travailleurs et travailleuses” está presente no eixo temático “Trabalhadores e trabalhadoras”. Em sua produção, Tarsila busca retratar o processo de industrialização do estado de São Paulo, assim como a diversidade étnica advinda de diferentes regiões do Brasil ao longo do desenvolvimento das fábricas no início do século XX nas metrópoles, impulsionando imigração e capitalismo. A maneira como Tarsila dispõe as figuras em seu quadro, de maneira aglomerada e em grande quantidade, impõe uma clara crítica à exploração do povo trabalhador e sobrecarga da jornada de trabalho diante o impactante crescimento da indústria no Brasil.

Outro trabalho de Tarsila do Amaral que merece destaque na exposição é o intitulado “Carnaval em Madureira”, presente no eixo temático “De A Negra à Macunaïma”. A partir de cores forte e usos de formas geométricas em sua composição, Tarsila eternizou em seu quadro um dos grandes feitos do carnaval de rua do Rio de Janeiro, a Torre Eiffel de Madureira, um coreto de 18 metros erguido em homenagem a Santos Dumont, aeronauta que sobrevoou o monumento francês e marcou a história do Brasil sendo a primeira pessoa a abrir as asas perto do Sol. Assim, a artista evoca do evento em questão, um sentimento de deslocamento intercultural, assim como ela mesma sentiu ao voltar da capital francesa para sua maior fonte de inspiração, o Brasil.

Tarsila de Aguiar do Amaral, nascida em Capivari – SP, foi uma artista multifacetada e visionária. Tarsila passou a infância na fazenda de seu pai, estudou em São Paulo e Barcelona, onde realizou seu primeiro quadro “Sagrado Coração de Jesus”, em 1904. Em 1920, iniciou os estudos na Académie Julien em Paris, mas sua primeira ida a capital francesa não se postergou por muito tempo, uma vez que recebeu a notícia de sua colega Anita Malfatti (1889 – 1964), sobre a Semana de Arte Moderna de 22, movimento precursor do que atualmente conhecemos como arte moderna brasileira.

Os quadros de Tarsila apresentam uma identidade única, sendo reconhecidos como seus em museus logo quando são vistos. As obras de Tarsila possuem características marcantes de uma brasilidade presente em movimentos como: Pau-Brasil; Antropofagia e Social e Neo Pau-Brasil; estes no qual o museu abordará em sua presente exposição. A relação de Amaral com a capital francesa não se limita apenas à mostra atual e as influências das vanguardas em sua produção, mas também em seu particular, uma vez já tendo exposto em Paris em 1926, em sua primeira mostra individual.

Seu expressivo amor por Paris fica claro desde seu primeiro contato com a deslumbrante capital, para a artista, sua estadia foi um tanto simbólica e marcante em sua carreira e vida pessoal. Segundo a historiadora e crítica de arte Michele Petry para a revista “DASartes”: “Trata-se de uma homenagem e reconhecimento à artista, pelos tempos que ela passou em Paris e pela grandiosidade que alcançou a sua obra.” Tendo construído um mundo iconográfico em Paris em 1926, Tarsila retorna à cidade em 2024, porém, dessa vez, como uma homenagem e celebração de sua expressiva carreira e marcante legado sendo figura central do movimento modernista brasleiro, expandindo essa arte além dos horizontes de seu país.
