Zanele Muholi

O TATE inaugurou em junho deste ano uma mostra dedicada à fotografia e ao ativismo visual de Zanele Muholi (1972 – ). A exposição, que está ocorrendo no TATE Modern, conta com mais de 260 obras, apresentando toda a amplitude da carreira de Muholi até o momento. A série de fotografias foi inaugurada originalmente no ano de 2020, mas infelizmente precisou ser interrompida em meio a uma era pandêmica. Quatro anos depois, o público terá a oportunidade de finalmente entrar em contato com as obras de Muholi em uma versão mais expandida. 

A exposição se encontra dividida em diferentes séries que percorrem a carreira de Zanele, desde seu primeiro corpo de trabalho até sua série mais recente, sendo dividida em cinco setores ao longo de nove salas: “Only Half the Picture”; “Faces and Phases”; “Brave Beauties”; “Being”; “Somnyama Ngonyama”, traduzida livremente como “Salve a Leoa Negra”. Por todo seu trabalho suas imagens desafiam as ideologias dominantes e apresentam os participantes não apenas como agentes ativos, mas também com o empoderamento e protagonismo que merecem. 

Iniciada no dia 6 de junho de 2024 e disponível para visitação até o dia 26 de janeiro de 2025, “Zanele Muholi” também conta com a disponibilidade de conteúdos e eventos que ocorrerão durante o decorrer da exposição no próprio site do TATE Modern. O local conta com recursos de acessibilidade física e para pessoas com neurodivergência, com horário de funcionamento das 10h às 18h, de segunda a domingo. Cabe mencionar que, aos membros e colaboradores do museu a entrada é gratuita, e aos demais públicos o valor de visitação é de 18 euros.

Owakhe X, Sheraton, Brooklyn, Nova York, 2019. Impressão em gelatina de prata, 50 x 42cm.
Vista da exposição "Zanele Muholi".

A mostra expõe cinco séries de diferentes trabalhos de Zanele Muholi a fim de marcar uma espécie de trajetória criativa de suas obras e diferentes abordagens voltadas a um mesmo eixo temático: suas fotografias denunciantes a respeito de raça, gênero, sexualidade e resistência de pessoas africanas.

A série “Only Half the Picture” retrata momentos íntimos de amor, contrastando uma espécie de alusão a eventos traumáticos – mesmo a África do Sul (país natal de Zanele) ser um dos países mais progressistas diante dos direitos da comunidade LGBTQIA+ no continente africano, prevalece alvo de violência extrema e preconceito.

ID Crisis. Da série "Only Half the Picture", Zanele Muholi, 2003.

Na série “Faces and Phases” somos apresentados a uma coletânea de retratos de pessoas pertencentes a comunidade, assim como seus nomes e cidades de origem. Prendendo seu olhar ao espectador o desafiando a fazer o mesmo, os indivíduos retratados por Muholi impõem em cada uma de suas particularidades, reconhecimento e empoderamento daqueles que um dia se viram vulneráveis diante de um sistema que também os pertence por direito.

Lesedi Modise, da série Faces e Fases, de Zanele Muholi, Mahikeng, Província do Noroeste, 2010.

Outros trabalhos de Muholi incluem “Brave Beauties” e “Being”, séries que celebram pessoas não binárias e mulheres trans, assim como imagens de casais que desafiam estereótipos, manifestando seu empoderamento.

Candice Nkosi, Durban. Da série "Brave Beauties", Zanele Muholi, 2020.
Vista da exposição. Da série "Being", Zanele Muholi.

Por fim, a última série fotográfica exposta na galeria recebe o nome de “Somnyama Ngonyama”, Salve a Leoa Negra em isiZulu. Nela, Muholi explora a partir de autofotografias, políticas de raça e representação. Fotografadas mundialmente, as imagens são atos de resistência referentes a histórias pessoais diante de um contexto colonial.

Em uma ampla trajetória artística, a mostra não se limita apenas às cinco séries feitas, mas expõe obras independentes em nove diferentes salas, demonstrando a diversidade de seu caráter artístico e a delicadeza que Muholi observa a partir de um mesmo eixo temático, diferentes nuances e possibilidades de dar voz ao seu ativismo.

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Julile I, Parktown, Joanesburgo. Da série "Salve a Leoa Negra", Zanele Muholi, 2016.

Zanele Muholi é uma figura muito presente e ativa no cenário contemporâneo. Nasceu no dia 19 de julho em Umlazi, na África do Sul e cresceu com cinco irmãos e uma mãe que trabalhava como empregada doméstica. Iniciou seus estudos em um curso de fotografia avançado oferecido em Newtown, Joanesburgo em 2003, e em 2004 realizou sua primeira exposição individual na Galeria de Arte na cidade onde iniciou seus estudos. 

Zanele Muholi cresceu no auge do apartheid, período que deixou marcas profundas em sua vida e no mundo inteiro. Todo este contexto de violência na qual Muholi cresceu moldou seu olhar e suas percepções perante tudo que acontecia consigo, servindo como combustível para impulsionar sua arte e seu compromisso em evidenciar as injustiças sociais, tornando-as algo significativo e ressignificativo. Seu trabalho é uma documentação visual cheia de simbolismo, do amor à violência, da alegria à dor e da resistência à opressão. 

MaID IV, Nova York. Da série "Salve a Leoa Negra". Zanele Muholi, 2016.

 Zanele impõe respeito a partir da arte da fotografia, enquanto a violência continuar, Muholi continuará a fotografar de maneira numerosa para que cada vez mais, suas vozes sejam ouvidas e suas histórias se recuperem. Seu trabalho contribui significativamente para uma história sul-africana mais democrática e inclusiva. 

Muito mais que fotografias, seu trabalho é revolucionário, político e inrotulável. Zanele não aceita a ideia de ser apenas “artista visual”, uma vez que seu trabalho não envolve apenas arte pela arte e é isso que motiva Muholi a continuar. Dessa forma, “ativista visual” é o rótulo que mais se encaixa com seu papel nas artes. Suas fotos dão sentido e reivindicam uma história transformadora em um mundo marcado por preconceitos prontos para serem derrubados por personagens como Zanele, que uma vez disse “Estou fervendo por dentro. Como qualquer outro grande homem quero ser contada na história. Eu quero produzir essa história. Eu quero basicamente dizer quem eu sou”.